Estamos imersos em sociedades digitalizadas, mesmo com a persistente desigualdade social, que também se expande para o mundo digital, no país e no mundo. Em todos os setores, nos deparamos com a onipresença de empresas com suas plataformas, hardware e conexão em rede envolvendo toda a sociedade e, em diferentes áreas, controlando o mundo através dos seus aplicativos e infraestrutura. O controle das grandes empresas (big techs) sobre as interfaces digitais tem modulado as possibilidades de interação entre todos(as), uma vez que os seus termos de usos funcionam como “leis” que ditam regras para a relação entre os sujeitos. O armazenamento e troca de informações gestado por essas empresas lhes permite dispor dos dados circulantes para extrair valor e gerar lucro, fazendo com que aqueles que estão detendo e vendendo essas tecnologias possuam um poder frente aos que consomem seus serviços, restando aos “usuários” apenas a possibilidade de consumir o que lhes é apresentado, sem a condição de alterar o modo como o serviço está sendo ofertado.
As big techs, via seus sistemas (as plataformas), têm adentrado também na educação, por meio das escolas e universidades. Por ser esse um setor que detém uma das maiores fatias dos orçamentos público, cada vez mais, essas empresas – associados com o capital financeiro nacional e internacional através de fundações ou associações ditas filantrópicas – passam a vender serviços “educacionais” – consultorias, material educacional, software, hardware, armazenamento em nuvem, serviço de e-mail institucional e plataformas de videoconferências, dentre outros. Enquanto isso, a maioria dos profissionais que atuam nas escolas e nas universidades acredita que as tecnologias produzidas no Vale do Silício trazem soluções insuperáveis, sendo mais velozes, produtivas e de qualidade. Em vista disso, podemos afirmar que a educação está sendo colonizada cada vez mais pela presença das big techs (Pretto, Amiel, Bonilla e Lapa, 2021). Associado a esse processo temos a proliferação de uma ideia de inovação articulada à uma perspectiva mercadológica e individualista (Aibar, 2023), que agrava a situação. Para nós, o incentivo à base de inovação enquanto processo coletivo e conhecimento científico e tecnológico começa desde cedo, em uma educação que forma para a cidadania crítica e ativa de sujeitos que se colocam em uma postura autoral e produtora, protagonista e não apenas consumidora de conteúdos, informações e meios, principalmente não dependentes de tecnologia externa (e proprietária). Ao defender esta postura, nos questionamos sobre todos os problemas que os serviços oferecidos pelas big techs estão trazendo para a soberania digital dos países e para o desenvolvimento da ciência e da educação brasileira.
Pensar a soberania tendo um olhar para a função da educação, significa pensar o desenvolvimento cientifico e tecnológico na perspectiva de se construir propostas que favoreçam esse desenvolvimento. Isto é, estamos preocupados com a defesa e preservação dos dados de milhares de servidores, professores, estudantes e familiares das escolas e das universidades públicas. Para tal, necessário e urgente pensar na construção teórica e prática da soberania digital, envolvendo soluções digitais próprias articuladas em redes federadas baseadas na filosofia do commons (procomun), como forma de enfrentar o aprisionamento tecnológico que cria dependência preocupante. E por fim, o que pensamos, propomos e vamos pesquisar é como todos esses aspectos elencados, e que são frutos de um amplo conjunto de pesquisas anteriores dos grupos aqui envolvidos, podem articular todos essas dimensões em políticas e projetos educacionais emancipadores. Para tanto, tomamos como questão de pesquisa: Como construir um ecossistema educacional soberano a partir da adoção de tecnologias livres e abertas, considerando os aspectos teóricos e práticos da integração ética e criativa das tecnologias digitais nos processos educacionais?
